segunda-feira, 15 de agosto de 2011

Interlúdio

Ando em passo apertado, numa roupa que não faz jus ao frio que está fazendo. Não estivesse agitado e perdido em pensamentos ociosos, certamente estaria batendo o queixo. Um relógio na rua marca oito graus, mas o que me preocupa é o horário, a lotação da casa. Será que vai ter lugar? Será que consigo tomar um café?


Chego quinze minutos antes da peça começar e esbaforido. A limitada noção de tempo, aliada a de espaço, sempre me fez ter a impressão que tão mais eu deseje estar em algum lugar num dado horário, tão mais longe será e tão mais tempo levará para eu chegar lá. Pensando melhor, não é uma peculiaridade rara no final das contas, qualquer um que tenha esperado cinco minutos acompanhando os ponteiros de um relógio sabe do que estou falando.


A peça em si, não me interessa. Não que seja uma peça ruim, pelo contrário: é uma montagem muito interessante, com um belo texto e eu acharia bastante original não fosse a terceira vez que eu estivesse indo assistir.  Finalmente, compro o ingresso e peço o café, que engulo rapidamente para tentar encontrar um bom lugar, no centro e a vista, não importa a fileira. Queimo os lábios a toa e o único lugar disponível é à extrema esquerda, na primeira fileira. Na verdade, pensando agora, esse é um lugar interessante por dois motivos. Um deles é que um espetáculo, me parece, nunca é concebido para ser apreciado deste ângulo, mas sim como se cada espectador estivesse defronte ao palco. Me ponho sentado no ponto clandestino, alheio às vontades de qualquer um que tenha se prestado a dispôr algo no palco. A outra, e isso bastaria de consolo, é que quando qualquer pessoa que estiver no palco olhar para cá sem dúvida estará olhando para mim, ao passo que se estivesse no centro eu poderia facilmente me julgar o alvo do olhar quando, na verdade, o alvo poderia ser perfeitamente um ponto vazio na parede do fundo ou mesmo outra pessoa.


Começou a peça. E com ela, os trâmites iniciais tão subjetivos e desnecessários quanto eu me lembrava, uma série de movimentos confusos (mais confusos deste ângulo) anunciando aos espectadores que esta não será uma narrativa tradicional, por sinal, nem se trata de uma narrativa, mas várias delas intercaladas por declamações, música, enfim, essas coisas.
No meio deste balé caótico, que vai durar mais uns cinco ou dez minutos, está ela. Linda e calculada como sempre. Convém tal domínio de si para um ator em cena, mas fora dela?
Mesmo atirada como está, dependurada nos ombros de um colega, exala uma sobriedade canônica e acho isso incrível, pra não dizer assustador. Acontece que esta mulher, que é de fato o único motivo pra eu estar aqui, faz tempo habita minha cabeça: se intercala quando não quero, não aparece quando procuro e me confunde quando não deve. Antes que julguem esse, precipitadamente, como um caso de amor platônico de um espectador por uma atriz, deixe-me dizer que não é exatamente isso. Ou melhor, deixem-me contar como se sucedeu e se encarreguem dos julgamentos. Conheci esta moça cerca de um ano, na ocasião da estréia da mesma peça que vejo agora, por intermédio de um conhecido em comum. Como já comentei, é uma mulher realmente muito bonita. Ao final da peça, dessa primeira vez que eu fui assistir, fui parabenizá-la pelo trabalho e começamos a conversar. Quero dizer, eu comecei a falar. Sempre ocorre quando descubro vários interesses em comum com um recém-conhecido, tento fazer-me conhecer tanto quanto possível no menor espaço de tempo. Acabei a conversa e estava indo embora quando, de repente, vejo ela correr para a rua e me chamar - Ei, qual teu nome mesmo?
A rápida corrida pra fora, o jeito como perguntou e a expressão curiosa e infantil dela naquele momento foi tão somente o início de tudo.


Agora, estou a espreita de um olhar, um descuido...por vezes me desconcentro e olho outra pessoa em cena, por mais que a protagonista pra mim seja ela. Teria ela, neste meio tempo, olhado pra mim?


Saímos outras vezes, e nunca a sós. Cada gesto premeditado, cada atitude concebida, ensaiada e ajustada, cada palavra medida. Entretanto, em breves momentos de descuido, a  alforria da intenção ela se mostrava tão doce quanto na primeira vez. Isso me confundiu bastante, e bem sei que pode ser fruto de uma especulação frustrada. É justo essa dúvida que me entorpece e perturba. Usei de vários subterfúgios para tentar mostrar meu afeto, de forma clara mas não explícita, como é bem meu costume, esperando uma resposta nos mesmos moldes... algum dia ela haveria de cogitar o que tanto me custa dizer.


Mas por hora ela toca piano, um samba-canção que conheço a letra e não lembro de onde, uma música triste e piegas sobre um antigo caso de amor acabado às pressas, e seu possível desfecho exterminado. Queimado, pra ser exato. Bem ao meu gosto, e das pessoas antigas, que cultivam e cultuam esse senso de tragédia posto numa caricatura de fatos, como se exaltando-as ao ridículo nossas próprias e pequenas tragédias fossem amenizadas.


Não sei ao certo o que me motiva nessas empreitadas onde, invariavelmente, faço papel de palhaço. Diversas vezes determino (sem muito ímpeto, é verdade) que isso não vai se repetir, mas a um jogo de olhares, um descuido qualquer me lança numa jornada sem rumo nem volta. Mesmo ela, que entre todas é a mais cuidadosa, não pôde evitar que isso ocorresse... quem mais poderá? A um rastro de primavera me ponho a aguardar um fruto que anteceda ao galho. Pelo meu coração passam estações jamais concebidas, mas a árvore que espero nasce somente no peito de outrem. Ela me entenderia? Se entendesse, o que diria? Ou melhor dizendo...ela sabe? Será que já percebeu? Se sim, como interpreto seu silêncio?


Agora vem a sessão de relatos dos atores, vários claramente pessoais. A cada vergonha exposta, cada desajuste desvelado, a platéia ri. Bem que eu poderia invadir o palco e trazer a tona tudo que sinto por ela, bem ali diante do olhar atônito de todos, mais dos atores que do público. O que será que eu diria? A platéia certamente pensaria em se tratar de um jogo cênico estapafúrdio e os atores jamais teriam um expressão de espanto tão convincente. Não sei ao certo qual seria a reação dela, talvez intercedesse pela ordem e chamasse um segurança, talvez enchesse os olhos d’água e me perguntasse o que estou fazendo ou, mais provável, fizesse nada. Ririam do meu relato?  E se ela me atestasse que tudo que relatei não existiu pra além da minha cabeça?  Talvez eu seja só mais um doido que anda por aí, percebendo coisas que não existem.


Por vezes tento encarar a situação de forma racional, e uma vez decidi esquecer essa história. Após uma semana de batalhado esquecimento entrei bastante bêbado num táxi  e apareci de supetão no bar que ela frequenta. Não lembro ao certo o que eu pretendia com aquilo, só percebi o que estava fazendo quando entrei no lugar e dei de cara com ela, quase tão espantada quanto eu por me ver ali, cambaleando e sem propósito.


Pelo que me lembro, o que vem agora já são os trâmites finais da peça. Não sei ao certo que atitude tomo, se a abraço e cumprimento ao final da peça, se saio como se não tivesse ido. Foi um erro ter vindo, e pra mim agora é claro. Face ao que expus, qualquer reação minha vai ser abrupta, sem nexo e desconcertada. Estou triste e perdido num mar de suposições duvidosas. As luzes acenderam. O que faço?  Onde está ela? Estou aqui. Oi! Me despeço? Estão se levantando, tenho que esperar um pouco. Não, vou me dirigir direto a saída. Rápido. Por sorte muita gente está felicitando o elenco e chego na rua sem maiores contratempos, faz muito frio. As luzes se acenderam e dentro de um curto espaço de tempo, todo aquele cenário terá sido desmontado, os atores terão voltado pras suas casas ou irão àquele bar que uma noite apareci desencontrado, as cadeiras serão alinhadas,o chão limpo, a sala fechada. Ela já não representa, apenas eu sigo no papel, recitando um roteiro ditado por um mudo e escrito por um cego. Não existe público, não existe cenário, não existe coisa alguma. Apenas eu. Eu permaneço e me desgraço, não aplaudo porque não me apraz mas permaneço. A quem agradaria? Algum dia, ela esquecerá do texto que representa. Qualquer dia eu também irei, o dela, o meu,ela. É simples. Eu preciso. Algum dia.

5 comentários:

  1. Muito bom.. =D segue essa linha. Arte que não nasce das pessoas é apenas acaso.

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  2. Bom texto com algumas belas frases pra se destacar. E de trata de uma de fato dolorosa sensação de impotência em um momento de plenipotência

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  3. Quem diria, hein Fábio??? Poxa, amei teu texto. Viajei nele e vivi o drama. Bem que o Felipe (Suslik) falou que era ótimo. Parabéns! Ainda quero ler muitos outros contos teus. Abração! Débora

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  4. Bacana! Não sou um seguidor dessa linha literária, mas devo admitir que me lembraste o estilo do Machado de Assis, de entrepor as idéias e pensamentos e embaralhar as conclusões. Vocabulário muito rico também, espero, como a Débora, poder ler novos contos seus em breve.
    Sucesso!

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